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Visitação até 11 de julho de 2026
Galeria Estação
R. Ferreira de Araújo, 625 - Pinheiros, São Paulo - SP
Artista

Conhecer a Navegante foi um momento para eu me lembrar de que a criação de algo novo, diferente, pode mesmo estar em qualquer lugar.
Com o advento das redes sociais e a disseminação do telefone celular, todos, todos, incluindo artistas autodidatas de lugares distantes e menos povoados, produzem, recebem e distribuem um volume imenso de informações. Isso, pensei eu, diminui a possibilidade de encontrar, ainda, a pureza, a originalidade e a beleza espontânea.
Ao conhecer a Navegante, levada pelo Pedro, galerista cearense, minha fé foi renovada! Indígena nascida no Ceará, a artista criou arte usando pigmentos naturais extraídos dos orifícios de uma matéria que os ciés, pequenos crustáceos, deixam na sua passagem.
Não vou contar mais. Vou convidá-los a ver a primeira exposição de Navegante Tremembé em São Paulo e a encantar-se com seu trabalho, assim como eu me encantei.
VILMA EID

“Memórias da terra”
A idade da cor
Navegante Tremembé nasceu em 1960, no aldeamento indígena Varjota, localizado em Itarema, interior do Ceará. Quando jovem, sua vizinha Maria Rosa Tremembé lhe ensinou a técnica indígena ancestral do toá, que é um pigmento natural utilizado tradicionalmente para fazer pinturas nas arquiteturas das casas e também em papéis, telas e cerâmicas.
O toá é uma areia colorida que Navegante colhe no solo do seu território originário, formado entre o mangue, o lagamar e o rio Aracati-Mirim. Esse pigmento é remanescente de camadas geológicas formadas há bilhões de anos na Terra, durante os períodos Paleozoico, Mesozoico, Cenozoico e Holoceno, entre outros. A partir de uma mistura de diversos componentes químicos, como óxido de ferro, caulim e sílica, cada um desses períodos formou sedimentações de diferentes cores. Por isso, o toá é encontrado naturalmente nas cores amarelo, vermelho e branco, que constituem as suas cores primárias. Posteriormente, a partir da mistura entre as cores primárias e a adição do pó do carvão mineral, a artista consegue criar as suas cores secundárias: laranja, verde e azul.
O processo de feitura das pinturas de Navegante inicia antes da tela. Tudo começa com a coleta do toá em seu território indígena. Com a ajuda do cié, que é um pequeno crustáceo do mangue, a artista consegue encontrar o pigmento no solo a partir de uma relação interespécie entre humanidade indígena, vida animal e geologia. Todo o processo faz parte da sua obra, desde a observação atenta aos sinais da paisagem, a escavação da superfície, a escolha do sedimento, até a lavagem, decantação e preparo da tinta. O seu processo é uma alquimia que envolve uma técnica complexa e um saber ancestral transmitido de geração em geração.
Devido à morte de Maria Rosa Tremembé, atualmente Navegante é a última da sua aldeia que sabe a técnica do toá, tornando-se assim a guardiã dos saberes ancestrais do povo Tremembé. A arqueóloga Marcélia Marques desenvolveu uma longa pesquisa sobre o território de Navegante e defende a ideia de que a sobrevivência do toá nos dias atuais é uma das maiores evidências na luta pela demarcação da terra indígena tremembé.
Atualmente, o território originário de Navegante está sendo disputado por empresas de monocultura e por grupos organizados, que derrubaram árvores e instalaram cercas ao redor do mangue, gerando transformações na paisagem mobilizadas pela ganância do capitalismo neoliberal. Essa devastação ambiental tem provocado o extermínio da fauna e da flora locais, desde a extinção de árvores e plantas nativas até o desaparecimento de pássaros e outros animais. Em suas telas, Navegante pinta essas árvores e pássaros como uma forma de denúncia da colonialidade. Por isso a sua pintura é política: porque registra, preserva e eterniza aquilo que está em vias de desaparecer.
As suas telas misturam experiências pessoais, cosmologia tremembé, memórias e imaginação, para formar composições oníricas com uma figuração sintética, uma economia do espaço e uma geometria indígena. As suas figuras são dotadas de movimento, expressam a força pulsante e vital da Natureza. As áreas abstratas e geométricas de seus quadros indicam a dimensão espiritual da cultura tremembé. Portanto, a pintura de Navegante não é uma mera reprodução da técnica do toá, mas sim uma constante experimentação e reinvenção da tradição.
A matéria do toá (formada antes da humanidade) carrega memórias muito antigas do planeta, é uma relíquia arqueológica de um tempo sem a existência colonizadora da humanidade. Por isso, as suas pinturas são arquivos da Terra, elas guardam saberes e mistérios do planeta que podem nos ensinar alternativas para enfrentar o colapso climático e a crise ambiental. Em suas obras, não vemos a presença predatória do humano, mas sim a liberdade da paisagem, onde os diversos modos de vida se interconectam em uma íntima ecologia. A sua pintura suspende o tempo e nos teletransporta para um passado sem a humanidade ou para um futuro em estado de regeneração.
Lucas Dilacerda
Curadoria, AICA – International Association of Art Critics


Sobre a artista Navegante Tremembé
1960, Itarema – CE, Brasil
Navegante Tremembé é uma artista indígena da aldeia Varjota, no interior do Ceará, cuja prática se desenvolve a partir de saberes ancestrais transmitidos em seu território. Há mais de quatro décadas, produz pinturas utilizando o toá, técnica tradicional que emprega pigmentos naturais extraídos da terra. Esse procedimento estabelece uma relação direta entre matéria, memória e território, configurando uma linguagem profundamente enraizada na cosmologia Tremembé.
Sua produção articula pintura, memória e resistência, transformando o gesto artístico em um modo de preservação de saberes. O toá — terra colorida formada por processos geológicos milenares — carrega em si uma dimensão temporal expandida, fazendo com que suas obras operem como verdadeiros arquivos da terra. Nelas, a artista mobiliza experiências pessoais, imaginação e referências cosmológicas para construir paisagens sintéticas, marcadas por economia formal, ritmo e uma geometria própria.
Em suas composições, árvores, pássaros e elementos da fauna surgem como presenças recorrentes, evocando tanto a vitalidade da natureza quanto sua fragilidade diante de processos de exploração. Sua pintura assume, assim, uma dimensão política, ao registrar e preservar aquilo que se encontra ameaçado, articulando denúncia e permanência.
A obra de Navegante Tremembé tem sido reconhecida por sua força simbólica e relevância contemporânea, integrando coleções institucionais como o Museum of African Contemporary Art Al Maaden (MACAAL), em Marrakech.
Sua trajetória afirma a potência de uma prática que une território, ancestralidade e linguagem, posicionando sua produção como uma das vozes mais singulares e urgentes da arte contemporânea indígena no Brasil.

"As suas telas misturam experiências pessoais, cosmologia tremembé, memórias e imaginação, para formar composições oníricas com uma figuração sintética, uma economia do espaço e uma geometria indígena."
Lucas Dilacerda
Exposição Navegante Tremembé - Memórias da terra
Curadoria de Lucas Dilacerda
Período: 28 de abril a 11 de julho de 2026
Abertura: 28 de abril, às 18hs
Encerramento: 11 de julho de 2026
Endereço: Rua Ferreira Araújo, 625 - Pinheiros, São Paulo.
Local: 2º andar
Horários de funcionamento da galeria: segunda a sexta, das 11h às 19h; sábados, das 11h às 15h; não abre aos domingos.
Tel: +55 11 3813-7253 | +55 11 92164-4695
Diretores
Vilma Eid
Roberto Eid Philipp
Curador
Lucas Dilacerda
Historiador da Arte
José Augusto Ribeiro
Diretora Comercial
Giselli Gumiero
Vendas
Alyne Shiohama
Produção
Amanda Clozel
Diretora de Marketing
Luciana Baptista Philipp
Comunicação e Marketing
Zion Branding
Fotos
Pedro Bessa
Montagem
Cadu Pimentel
Iluminação e apoio de produção
Marcos Vinícius dos Santos
Kléber José Azevedo
Diogo Gabriel Leite Santos
Assessoria de imprensa
Baobá Comunicação, Cultura e Conteúdo
Revisão
Otacílio Nunes
Tradução
Maria Fernanda Mazzuco - Inglês

















